21/08/2019 23:29

BOLSONARO QUER VENCER DE NOVO PELO CONFRONTO

Ricardo Bruno

Com a manifestação de domingo, o presidente Jair Bolsonaro declarou guerra aberta ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Com bonecos caricatos, faixas de conteúdo agressivo e palavras de ordem, a tropa de Bolsonaro fez de Maia o alvo central da manifestação. E isto ocorre no exato momento em que Bolsonaro, em tese, mais necessita do apoio do presidente da Câmara para aprovar a reforma da previdência.
O fato suscita especulações: ou Bolsonaro não quer de fato a mudança na previdência, como já deixara transparecer em declarações dúbias e obscuras; ou imagina ter forças suficientes para fazer sangrar publicamente a autoridade moral do presidente da Câmara, tornando-o um zumbi de menor relevância no jogo político entre seus pares no Congresso Nacional.
Surpreendente a capacidade do presidente de deflagrar conflitos e acirrar divergências. Há uma semana, Maia se exasperou com o líder do governo, major Vitor Hugo, responsável por alusões públicas a supostas negociatas no parlamento. Passada a ira e recobrado o bom senso, agendou encontro com o líder de modo a superar o constrangimento produzido pelas críticas extemporâneas. Quando a poeira parecia baixar, Bolsonaro encarregou-se de lançar gasolina na fogueira. Em declaração pública, endossou o conteúdo das manifestações com frases que sugerem concordância com os ataques à Câmara dos Deputados. “Os protestos são um recado aos que teimam com velhas práticas e não permitem que o povo se liberte”.
Além do pixuleco travestido de Rodrigo Maia, simpatizantes de Bolsonaro foram para porta de residência do presidente da Câmara para constrangê-lo diante da família e dos vizinhos no fim de semana. Houve um notório esforço para pespegar em Maia a pecha de representante do que chamam de velha política, numa referência à mistura de interesses escusos aos compromissos republicanos.
A escalada de confrontos com Rodrigo Maia deve provocar reação no Congresso. Setores próximos ao presidente da Câmara entenderam a mensagem e se articulam para reagir à tentativa pública de emparedá-lo, e assim, fragilizá-lo nos embates do parlamento.
O clima das manifestações definitivamente não contribuem para o avanço das negociações. Com o protesto, o presidente revelou a forma pela qual deseja aprovar as mudanças. Recusa-se a negociar de modo direto – atitude em si republicana e não censurável - e tenta criar uma pressão de fora pra dentro de modo a vergar os parlamentares pelo peso da militância nas ruas. Como na eleição, tenta mais uma vez vencer pelo confronto. Uma atitude no minimo arriscada diante de um Congresso de 594 experientes parlamentares, calejados na lide e imunes a estratagemas de coação.

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