19/03/2019 20:36

Em delação, empresário revela ter pago 2,5 milhões de dólares a Índio

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Em tentativa de acordo de colaboração premiada ainda não homologado pelo Ministério Público, o empresário Mariano Ferraz afirmou ter pago 2,5 milhões de dólares (R$ 9,6 milhões) ao ex-deputado Índio da Costa, em troca de proteção na CPI da Petrobras - instalada em 2014 para apurar as primeiras denúncias de suborno na estatal. Ferraz revelou também ter realizado doação eleitoral em caixa dois no valor de R 1 milhão de dólares (R$ 3, 8 milhões) ao ex-deputado Júlio Lopes.

Segundo o delator, Índio, que à época não era deputado, o procurou em sua residência em Genebra, na Suíça, com a promessa de atuar reservadamente em defesa de seus interesses na CPI. Em contrapartida, teria solicitado vantagem financeira sob o pretexto de doação para sua campanha. Na ocasião, havia o risco iminente de o empresário ser convocado para depor, dada a suspeição de contratos envolvendo a empresa da qual era diretor, a Tranfigura, e a Petrobras. Ferraz acabou efetivamente não sendo convocado.

De acordo com delator, os pagamentos foram realizados através da conta do escritório de advocacia Nelson Williams Advogados Associados, do qual Índio da Costa fora sócio até 2012. Em 14 de outubro de 2014 houve o primeiro depósito de 1,5 milhão de dólares. O segundo, de mais 1 milhão de dólares,ocorreu em 20 de março de 2015. Ambos na conta de Nelson Wiliiams, no Banco Santander.

O delator afirma ainda que era procurado com regularidade por Índio da Costa, que lhe repassava informações e detalhes do andamento da CPI , além dos esforços dispendidos para evitar sua convocação.

Este não teria sido o único pedido de Indio da Costa ao empresário. De acordo com Mariano, em 2016, em Londres, eles tiveram novo encontro, durante o qual Índio teria pedido doação para sua campanha a deputado nas eleições de outubro. Segundo Mariano, foram realizadas novas contribuições em favor do ex-parlamentar – desta vez, 300 mil dólares numa conta no Uruguai.
Em documento endereçado à Força Tarefa da Lava-Jato, a Procuradora- Geral, Raquel Dodge, afirma que Índio da Costa não concorreu à reeleição, razão pela qual não existir mais dúvida quanto à improcedência da prerrogativa de foro junto ao Supremo Tribunal Federal. O caso foi devolvido à primeira instância.

Mariano revelou também que índio da Costa afirmara que ‘embora não compusesse a comissão parlamentar, gozava de prestígio e poder de influência no Congresso, de modo que poderia monitorar a CPMI e, se fosse necessário, intervir para evitar a convocação” do empresário. Dodge afirma ainda que o receio de Mariano ser efetivamente convocado não era abstrato, pois a relação da Trafigura, empresa da qual era diretor, com contratos suspeitos na Petrobrás, fora mencionada em várias oportunidades na CPI.

Em resposta à Agenda, Índio da Costa afirma que à época não era deputado e que fora contratado, através do escritório de Nelson Williams, para atuar como advogado junto à CPI da Petrobras de modo a reduzir danos de imagem do cliente e a eventual queda dos valores das ações da Trafigura. De acordo com Índio, a colaboração para a campanha de 300 mil dólares, supostamente depositada no Uruguai, não ocorreu. Ele esclarece também que continuou como sócio do escritório de advocacia até 2014. Segundo o ex-deputado, em 2012 ele saiu temporariamente da sociedade para assumir um cargo público na prefeitura do Rio, após o que retornou aos quadros da empresa.

Na mesma delação, Mariano Ferraz diz que colaborou informalmente com a campanha de Júlio Lopes à Câmara Federal em 2014. O valor, um milhão de dólares, teria sido pago no Uruguai ao operador financeiro Luiz Carlos Veloso. Para tentar emprestar veracidade ao relato, o delator apresentou dados pessoais de Júlio Lopes, além de email trocado no dia 3/11/2014 com a indicação do endereço onde o dinheiro deveria ser recebido no Uruguai. Os advogados de Júlio Lopes negam o recebimento da contribuição em caixa dois, em nota ao portal UOL.

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