26/05/2019 02:51

Cabral rompe pacto de silêncio e detona Régis

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O ex-governador do Rio Sérgio Cabral admitiu, pela primeira vez, em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), que recebeu propina de obras e contratos firmados com empresas fornecedoras do governo do estado. No mesma oportunidade, Cabral rompeu o pacto de silêncio sobre o envolvimento de seus auxiliares mais próximos com os esquemas de corrupção: delatou com pormenores a participação de seu chefe da Casa Civil, Régis Fichtner, na coordenação de inúmeras operações com recebimento de propina para ambos.

Segundo a GloboNews, Cabral afirmou que Fichtner sempre teve conhecimento e participação nos valores recebidos de forma lícita e ilicitamente em suas campanhas eleitorais, desde 1998. O ex-governador disse que o ex-secretário ajudou a “operacionalizar” o recebimento de caixa dois na campanha de 2002.

O recebimento de propina começou, de acordo com Cabral, no início de seu governo, em 2007. Ele disse que estipulava a porcentagem que queria dos contratos e que Régis fazia os acordos com as empreiteiras e fornecedores.


“Tudo comandado pelo Régis. Eu dava na mão dele. Dizia: eu quero assim, faz assim, ele ia fazendo, coordenando e tirando os próprios proveitos dele. Eu tirava os meus proveitos dos meus combinados, eu quero x% da obra, 2%, 3% da obra, e o Régis fazia um acordo, se beneficiava também dessa caixa. E se beneficiava... que não me abria isso, tudo eu vinha a descobrir depois. Ele fazia contrato na cara de pau, tava ... para a Queiroz (Galvão), para a Odebrecht, para não sei o que, para não sei o que..”, disse, acrescentando que o esquema teria começando entre janeiro e março: “Se não foi janeiro, foi fevereiro, se não foi fevereiro, foi março, quando começou a rolar a propina paga por aqueles fornecedores”, disse o ex-governador.

Segundo Cabral, que trocou de advogado recentemente, ele pagava uma mensalidade para Fichtner com o dinheiro recebido da propina em seu governo, e que o valor dessa mensalidade no início era em torno de R$ 100 a R$ 150 mil. Cabral afirmou que o ex-secretário recebia propina não só em obras, como também nas concessões feitas pelo estado.

Cabral, que hoje vai prestar novo depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, contou que se recorda que Regis recebeu propina do setor de transportes e que, em alguns casos, eram prestados serviços advocatícios pelo escritório do ex-chefe da Casa Civil.

Os valores eram superfaturados para pagamento de propina. Ele afirmou ainda que o núcleo duro do grupo era formado por Fichtner, o ex-secretário de governo Wilson Carlos e o ex-governador Luiz Fernando Pezão.

O secretário da Casa Civil de Cabral foi preso no dia 15 de fevereiro deste ano, em mais uma fase da operação Lava-Jato no Rio. Esta é a segunda prisão de Fichtner, que entre 2007 e 2014 foi uma dos nomes mais importantes do quadro de secretários do ex-governador.

Em novembro de 2017, Fichtner e outras quatro pessoas foram detidas durante a Operação C’est Fini (“É o fim”, em francês). O advogado passou uma semana na cadeia e foi liberado graças a um habeas corpus do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). Na época, foi denunciado pelo Ministério Público Federal acusado de receber mais de R$ 1,5 milhão em propina quando comandou a Casa Civil.

Nesta operação de fevereiro em que Fichtner foi preso, o MPF afirmou que foram mapeados R$ 4,7 milhões em propinas destinadas ao ex-secretário que constam tanto em documentos da Transexpert — empresa de transporte de valores usada pela organização de Cabral, segundo o MPF, para entrega de dinheiro vivo — quanto no sistema de controle dos doleiros delatores Vinícius Claret, o Juca Bala, e Cláudio Barboza, o Tony.

O MPF aponta ainda, com base em e-mails e na delação de Carlos Miranda, operador de Cabral, uma sala que pertenceria a Fichtner e que foi paga com dinheiro de propina, segundo os procuradores.

Pedido da defesa

O advogado de Sérgio Cabral, Marcio Delambert, disse, em nota, que o depoimento do ex-governador se deu por pedido da defesa em um inquérito sigiloso, com o objetivo de melhor esclarecer fatos narrados em inúmeras ações penais.

Já o escritório de advocacia de Régis Fichtner negou as acusações feitas por Cabral. Segundo a nota, as declarações do ex-governador “só podem estar servindo ao propósito de obtenção de benefícios ilegítimos de alguém que já foi condenado em inúmeros processos”. A nota diz ainda que o sigilo bancário do escritório foi quebrado pela Justiça em 2017 e nenhum dos fatos relatados foi comprovado. Régis informou que só vai se manifestar quando tiver acesso ao depoimento do ex-governador.

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