17/02/2019 13:02

No quinto dia, Bolsonaro já estressa o mercado

Ricardo Bruno


O quinto dia do novo governo foi marcado por enorme estresse entre o presidente Bolsonaro e o mercado, esta entidade abstrata que tenta regular tudo e todos em direção a um mundo absolutamente privatista. O conflito pôs a nu o Bolsonaro que fazia profissão de fé no nacionalismo do Exército Brasileiro e o outro, o candidato que se mostrou no curso da campanha convertido ao receituário neoliberal de Paulo Guedes.

Críticas à operação Boeing/Embraer, aumento de impostos, uma reforma da previdência mais suave trouxeram espanto e deixaram aturdidos os operadores do mercado. Símbolo maior desta corrente econômica no Governo, Paulo Guedes desapareceu; cancelou compromissos e não deu entrevistas. Teria de confrontar o presidente publicamente para se manter minimamente coerente.

Nada disto, entretanto, era absolutamente imprevisível. Quem se dispuser a analisar o histórico das votações de Bolsonaro no Congresso verá que as declarações de ontem são coerentes com as posições históricas do presidente. Ele votou contra as principais tentativas de reforma da Previdência e contra as grandes privatizações, como o fim do monopólio do petróleo e o das telecomunicações nos anos 1990.Ao mesmo tempo, apoiou benefícios aos servidores, isenções fiscais a setores específicos e medidas que elevaram o gasto público.

Mesmo no governo Michel Temer, quando suas ambições presidenciais já estavam claras, suas posições econômicas continuaram ambíguas. Bolsonaro votou a favor do teto de gastos em outubro de 2016, mas, um ano e meio depois, deu seu aval para o Congresso apreciar em regime de urgência a criação de centenas de municípios —medida que, se aprovada, certamente elevará as despesas públicas.

"A transformação do Bolsonaro em um liberal não foi completa. Ele continuou muito ambíguo e até um pouco oportunista e amador. Esse amadorismo em temas econômicos é muito preocupante em um governo", diz Fernando Abrucio, cientista político e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Em síntese, há dois Bolsonaros: o nacionalista histórico e o privatista inveterado da campanha. O dia de ontem deixou clara esta ambiguidade que fraciona e limita a linha de ação do governo. Ainda que tenha se encantado com Paulo Guedes, era de se esperar que Bolsonaro não conseguisse arquivar integralmente seus posições históricas. O rumo final do País dependerá do lado que vai se sobrepor nas decisões do presidente. Há um claro conflito e ele não é todo ruim, pois em certa medida põe freio aos privatistas despudorados.



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